Comigos de mim

3 days ago

3 days ago

Nada sou, nada posso, nada sigo. 
Trago, por ilusão, meu ser comigo. 
Não compreendo compreender, nem sei 
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul 
Do lato céu um vento vão do sul 
Acorda-me e estremece no verdor. 
Ter razão, ter vitória, ter amor

Murcharam na haste morta da ilusão. 
Sonhar é nada e não saber é vão. 
Dorme na sombra, incerto coração.

O silêncio é uma forma de bater na porta do salão da verdade. Tudo que é belo e verdadeiro nasce do silêncio. Ele é a base que prepara para qualquer prática; É o alicerce do edifício da consciência.

A mania de perfeição é você correndo atrás de você mesmo o tempo todo. É o cachorrinho correndo atrás do próprio rabo, essa é a mania de perfeição. É você querendo se tornar alguma coisa diferente, especial. Claro que a base disso é a sua carência, porque você acredita que se você conseguir atingir tal meta, você vai receber atenção, amor, reconhecimento, etc. Mas eu vou lhe dizer que o máximo que você pode conseguir é uma depressão, o máximo que você pode conseguir é uma dor de cabeça, o máximo que você pode conseguir são doses cavalares de sofrimento.

Nós somos o que nós perdemos.

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Muito é ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente…
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstrato, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.

Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive…

Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida —
Faz partir, que eu quero partir…

Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei?
Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,

[Toque de vigias, suspiros do porto?]

Lenços a acenarem-me do cais em que ficam…
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

(Source: fernandopessoas)